quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Uma questão de ponto de vista

Ele vivia olhando para baixo. Acordava, andava, trabalhava, comia, bebia, namorava olhando para baixo. Ele sofria olhando para baixo. Não é fácil andar por um mundo como o nosso olhado para baixo. Afinal, na base da pirâmide visual há coisas muito agradáveis de se ver como unhas encravadas, dedos mindinhos femininos andando por aí separados do resto do pé e calcanhares que só perdem em número de fendas para o sertão Nordestino em época de seca.

Depois de algum tempo, ele até digeria tudo isso com certa desenvoltura, até que, andando por uma calçada no entorno da Oscar Freire, deparou-se com o que ele achava ser um presságio do final do mundo: chinelos de dedo plissados com cristais Swarowski. Não que ele tivesse paixão, pena, ou qualquer outro sentimento por cristais Swarowski. Mas, como alguém podia misturar algo tão nobre com chulé, poeira e cocô de cachorro? Pensava ele.

Foi aí que resolveu levantar o queixo e, cheio de uma segurança que saiu não se sabe de onde, começou a olhar as coisas e pessoas de frente. Ó lástima. Ó azar. Tudo o que ele enxergava não fazia o menor sentido e, ao invés de sofrer, ele agora odiava. Odiava aqueles gordinhos que frequentam (modo de falar) academias somente às segundas e sextas-feiras. Às segundas, para livrar-se do peso (da consciência, que fique claro) de ter devorado arrobas de comida, e às sextas-feiras, com a esperança de receber um milagre de Nossa Senhora do Shape e adentrar o final de semana com tudo em cima, inclusive a auto-estima. Odiava quem olhava torto para esses gordinhos, que ficavam intimidados. Odiava os intimidados gordinhos que tratavam mal os garçons, que só faziam ajudá-los na impossível tarefa de satisfazê-los. Odiava os garçons que cuspiam nos pratos dos clientes para sentirem-se vingados do chefe avarento. Odiava o chefe avarento que pagava mal os funcionários para poder comprar carros cada vez mais robustos e rápidos, enquanto seu pênis ficava mais flácido e lento. Até que um dia, odiando um passarinho que cagou em sua cabeça, ele olhou para cima e viu. Não uma faceta desenvolvida e elevada daqueles que ele aprendera a odiar. Ele não viu nada. E depois disso, tanto fazia olhar para baixo ou para frente, desde que não tirasse os olhos dEle.

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