terça-feira, 21 de outubro de 2008

Inteligência artificial

Raoni. Sim, Raoni era o nome dele. Nome de índio, cacique. Gente da terra. Raoni não tinha sequer o branco do olho parecido com o de um índio, mas o simples fato de ele não entender certas coisas da vida moderna tornava o fato de ele ter nome de índio uma feliz coincidência. Hoje em dia todo mundo é inteligente, pensava Raoni. Todo mundo é workaholic. Work o quê? Ah, aquele cara que passa o dia na internet procurando coisas inteligentes para dizer e começa a trabalhar quando é hora de ir embora. Sim, todo mundo é inteligente, workaholic e, por isso, bem sucedido, pensava Raoni. Menos eu. Não abro a internet mais vezes que o necessário, não tenho iPhone comprado em 10 vezes sem juros, tampouco um carro em 60 vezes com todos os juros do mundo. Juro que não tenho. Então eu não sei das coisas por causa disso?

Raoni abriu a Internet pela 2a vez num sábado ensolarado que convidava para atividades ao ar livre. Queria saber das coisas. Queria parecer glamouroso. Queria a maçã que não dá em árvore. E ao abrir a página de um site de notícias comportamentais, dá de cara com a notícia:

96% das mulheres que trabalham em escritorios nos EUA disseram "gostar" ou "amar" seus computadores. É o que indica uma pesquisa realizada pela Harris Interactive para a Wellgate for Women. Em media, uma mulher com este perfil passa mais tempo com seu computador (mais de 9 horas por dia) do que com seu namorado ou marido (3,6 horas diárias). As mulheres também passam mais tempo com o computador do que fazendo compras (62% delas), fazendo exercício (79%), na companhia de amigos (58%), em espaços abertos (62%), cuidando da higiene pessoal (43%) ou na companhia da familia (41%).

Sinais dos tempos, pensou ele. Não entrava em sua cabeça como uma mulher pode preferir um computador à companhia de alguém. A fazer algo. Eureka! Raoni achava ter descoberto a razão de tudo aquilo. É que computadores dão pau, filosofou. Logo, a mulher materializava no computador tudo aquilo que os homens modernos, preocupados em exibir seus objetos materiais, acabavam não dando a elas. Coisas da modernidade. Viu como passar o dia na rede deixa as pessoas mais inteligentes?

Fonte da notícia, aqui.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Uma questão de ponto de vista

Ele vivia olhando para baixo. Acordava, andava, trabalhava, comia, bebia, namorava olhando para baixo. Ele sofria olhando para baixo. Não é fácil andar por um mundo como o nosso olhado para baixo. Afinal, na base da pirâmide visual há coisas muito agradáveis de se ver como unhas encravadas, dedos mindinhos femininos andando por aí separados do resto do pé e calcanhares que só perdem em número de fendas para o sertão Nordestino em época de seca.

Depois de algum tempo, ele até digeria tudo isso com certa desenvoltura, até que, andando por uma calçada no entorno da Oscar Freire, deparou-se com o que ele achava ser um presságio do final do mundo: chinelos de dedo plissados com cristais Swarowski. Não que ele tivesse paixão, pena, ou qualquer outro sentimento por cristais Swarowski. Mas, como alguém podia misturar algo tão nobre com chulé, poeira e cocô de cachorro? Pensava ele.

Foi aí que resolveu levantar o queixo e, cheio de uma segurança que saiu não se sabe de onde, começou a olhar as coisas e pessoas de frente. Ó lástima. Ó azar. Tudo o que ele enxergava não fazia o menor sentido e, ao invés de sofrer, ele agora odiava. Odiava aqueles gordinhos que frequentam (modo de falar) academias somente às segundas e sextas-feiras. Às segundas, para livrar-se do peso (da consciência, que fique claro) de ter devorado arrobas de comida, e às sextas-feiras, com a esperança de receber um milagre de Nossa Senhora do Shape e adentrar o final de semana com tudo em cima, inclusive a auto-estima. Odiava quem olhava torto para esses gordinhos, que ficavam intimidados. Odiava os intimidados gordinhos que tratavam mal os garçons, que só faziam ajudá-los na impossível tarefa de satisfazê-los. Odiava os garçons que cuspiam nos pratos dos clientes para sentirem-se vingados do chefe avarento. Odiava o chefe avarento que pagava mal os funcionários para poder comprar carros cada vez mais robustos e rápidos, enquanto seu pênis ficava mais flácido e lento. Até que um dia, odiando um passarinho que cagou em sua cabeça, ele olhou para cima e viu. Não uma faceta desenvolvida e elevada daqueles que ele aprendera a odiar. Ele não viu nada. E depois disso, tanto fazia olhar para baixo ou para frente, desde que não tirasse os olhos dEle.

Tem alguém aí?!?!